Maia de Lacerda

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João Batista Maia de Lacerda, um espírito culto e trabalhador, e um coração simples e bondoso

Em 1851 nasceu João Batista Maia de Lacerda , no Estado de Minas Gerais, filho do Sr. Cândido de Lacerda Bittencourt e de D. Francisca da Rocha Maia de Lacerda.

Em todas as classes sociais angariou sincera estima, sendo o seu nome sufragado várias vezes para cargos públicos. Pela primeira vez, representou o 3° Distrito no Conselho Municipal do ex-Distrito Federal, do qual foi seu presidente, e, na vaga aberta no 2° Distrito, pela morte do Dr. Matos Rodrigues, foi ele eleito com grande maioria de votos.

Nos muitos cargos que ocupou, o Dr. Maia de Lacerda sempre gozou de geral simpatia, pela lhaneza com que tratava os seus subordinados, pela pujança dos seus dotes intelectuais e pela justiça por que pautava os seus mínimos atos, merecendo, por isso, dos seus chefes hierárquicos constantes louvores.

E assim, na Estrada de Ferro Central do Brasil, onde foi chefe de todas as divisões e até inspetor geral do tráfego, deixou em cada empregado um afeiçoado, um amigo.

E o mesmo se pode dizer de sua atuação como engenheiro fiscal da Estrada de Ferro Companhia Estrada de Ferro S. Fidélis; como engenheiro da Estrada de Ferro Macaé a Campos; como diretor das obras municipais, quando prefeito do ex-Distrito Federal o Dr. Coelho Rodrigues, cargo, aliás, que o Dr. Lacerda soube exercer com zelo e dedicação.

No próprio Conselho Municipal o seu nome se tornou respeitado e querido, porque sempre se constituiu o intimorato advogado das boas causas, o sincero defensor da justiça, do fraco, do desprotegido. Tanto é assim que, quando a Mesa deste Conselho soube do falecimento do digno vereador, geral foi a consternação, sendo então tomadas diversas providências, entre elas a de cerrar as portas do edifício do Conselho por três dias, à frente do qual se hasteou a bandeira em funeral.

Maia de Lacerda foi levado ao Espiritismo pelo seu grande amigo Dr. Bezerra de Menezes

Amigo de Bezerra de Menezes, por quem foi levado para o espiritismo , tendo ocupado a vice-presidência da Federação Espírita Brasileira de 1900 a 1902. Seus conselhos, suas ponderações e observações eram sempre acatados com o máximo respeito, e diz-nos o grande Leopoldo Cirne, o então presidente da Federação, que os diretores jamais arriscavam a menor deliberação sem ouvir a palavra de Maia de Lacerda, «sempre repassada de sabedoria e previdência, e à qual ele sabia imprimir esse cunho de despreocupada simplicidade, que é uma variante da verdadeira modéstia em que se agasalham as grandes almas como a sua.

Os novos Estatutos que passaram a reger os destinos da Federação, em 1902, podem ser considerados como obra dele.

Foi efetivamente à preponderância dos seus sábios e prudentes conselhos – aditou, ainda, Leopoldo Cirne – que se deveram as melhores providências que se acham ali consignadas, e os severos moldes em que está vazada a sua estrutura geral não foram estranhos à ativa colaboração de que, para tal fim, participou.

Ainda na Federação, Maia de Lacerda desempenhou religiosamente as suas funções de médium receitista, ao lado de outros abnegados, como Pedro Richard, José Inácio Pimentel, Frederico Pereira da Silva Júnior, Inácio Dias Pereira Nunes e Henrique Inácio Faria.

Às 6 h e 45 m do dia 4 de Junho de 1902, o estimado discípulo de Bezerra transpunha o limiar do mundo dos Espíritos, apesar de todos os recursos e cuidados a ele dispensados pelo médico assistente, o doutor Dias da Cruz, aquele mesmo que presidira a FEB de 1890 até princípios de 1895.

Eis alguns trechos do panegírico que o jornal A Tribuna dedicou ao ilustre falecido:

Caritativo, esmoler, o que ganhava despendia com os desafortunados. Era um desapaixonado em todas as questões, e poucos terão tido tantos admiradores como ele.

O Dr. Maia de Lacerda conservou-se sempre solteiro

O Dr. Maia de Lacerda optou por conservar-se solteiro, porque, dizia ele, tinha uma mãe que precisava de todo o seu coração, de todo o seu desvelo, de todo o seu amparo.

Foi o exemplo vivo do amor filial o ilustre mineiro, falecido ontem aos 51 anos, cheio de vigor e que prometia ainda prestar relevantes serviços à República, que sempre defendeu com amor extremado.

Os despojos mortais saíram da Rua Santos Rodrigues, nº 43, para o Cemitério de São Francisco Xavier, onde foram inumados no carneiro perpétuo nº 4.562, 11ª presença de grande assistência.

Perdera o Espiritismo uma de suas respeitadas e queridas figuras, e o mundo profano um dedicado servidor da Pátria.

Transcreveremos, a seguir, dois vibrantes trabalhos publicados em Reformador de 15 de Junho de 1902, os quais, melhor do que quaisquer outros, expressam com perfeição e exatidão o caráter adamantino desse eminente vulto do Espiritismo no Brasil.

Libertação de um justo

Não é nosso intuito tecer aqui o panegírico daquele alevantado Espírito, cujo sulco pela Terra se acha traçado sobre centenas de corações agradecidos, que tiveram a fortuna de sentir o seu amoroso contacto. De que valeriam pobres testemunhos de palavras, quando mesmo – e é o nosso caso – oriundos do sentimento, a quem só de atos de verdadeiro espírita-cristão se preocupou e viveu, imortalizando-se, e por eles, somente, hoje vive e viverá?

Também não vimos desferir as nênias da saudade sobre o seu túmulo recente.

Semelhantes tributos são unicamente próprios dos que desconhecem a verdadeira vida, dos que ignoram que, para além dos estreitos âmbitos da Terra, novos e ilimitados horizontes se descerram às vistas e à atividade do Espírito liberto, e que entre o nosso mundo e essa vastidão infinita do espaço nenhuma barreira se eleva, que impeça esta doce comunhão em que permanecemos com os seres amados que lá nos precederam.

Os que assim cremos, os que, por misericórdia do Céu, já possuímos esta consoladora certeza, não somente da imortalidade, mas dessa perpétua comunhão, dessa permuta, invisível mas constante, entre os que cá ficamos envolvidos no pó e os que se afastaram, irradiando na luz, mas que temos a faculdade de atrair pela sinceridade do nosso sentimento, não podemos ter a incoerência das lágrimas, nem nos é lícito, quando a lei de finalidade nos arrebata ao contacto visível um dos seres caros, pagar-lhe outro tributo que não seja o das bênçãos, entoando hosanas ao Criador, por essa feliz libertação do companheiro de presídio.

Eis porque não tem sequer a Federação que deplorar a perda do seu querido vice presidente

Porque, subtraído às nossas vistas, não o foi ele senão para se tornar mais assídua e valiosa a sua assistência, muito mais do que na Terra, em que, tolhido pelos cuidados que a sua saúde reclamava, com freqüência nos víamos privados do seu conselho, sempre avisado e esclarecido, ao passo que hoje podemos ter a certeza da sua inspiração em todos os nossos trabalhos, com o conforto moral que nos podem transfundir as novas potencialidades adquiridas pelo seu Espírito, desembaraçado dos empecilhos da matéria.

Que vimos então fazer, divulgando esta notícia da desencarnação do nosso companheiro? Que homenagem lhe podemos render, que dele seja digna, e que corresponda à veneração em que envolvemos a sua memória, e traduza o amor e a gratidão que lhe votamos?

Amor! Gratidão! E porventura os míseros vermes que rastejamos na Terra, mal desprendidos da grilheta das iniquidades, e que apenas agora, a poder de titânicos esforços, nos ensaiamos nos sentimentos cristãos, somos capazes de, com o coração – que não dos lábios – penetrar a essência dessas divinas eclosões?

Não. Ao ver partir para a grande jornada do infinito, envolto na sua própria luz, um desses peregrinos da caridade evangélica, como o foi Maia de Lacerda, ainda tocados do assombro que nos deixou o espetáculo do seu desprendimento, rodeado de uma serenidade majestosa, a única coisa que, sem afetações exteriores, nos é lícito fazer é estacar diante dessa vida exemplar, para nela haurir os elevados ensinamentos que contém.

E aí, mirando esse evangelho vivo, pontificado dia a dia por meio de todas as amargas vicissitudes da existência, resignadamente suportadas, demos graças a Deus se o desejo nos vier de, renunciando definitivamente às paixões revoltas que nos infelicitam, aprender, nessas sábias e generosas lições, a viver como esse apóstolo viveu e, como ele, morrer dignamente.

Que foi a vida de Maia de Lacerda?

– Acabamos de o indicar: um apostolado de virtude

Homem público, consagrado aos interesses da sua pátria, nos cargos com que o distinguiu a confiança popular, – cidadão, imolado aos espinhosos deveres da sua profissão, tendo, muitas vezes, dependentes da sua hierarquia de chefe, sob a autoridade que a sua posição lhe conferia, o destino e os interesses de inúmeras criaturas, – homem do lar, irmão e filho extremosíssimo, – espírita militante, médium de todas as faculdades, postas sempre e incessantemente ao serviço da caridade, – em todas as órbitas em que se exerceu a atividade da sua inteligência, ou se evidenciaram os primores do seu coração, em todas deixou impresso o cunho da bondade, característica predominante do seu espírito de eleição.

Se houvesse uma filiação espiritual, como, por lei fisiológica, há uma filiação hereditária, poderíamos dizer que Maia de Lacerda era bem o filho, que espiritualmente se considerava, de Bezerra de Menezes, de quem, ao demais, recebeu efetivamente os meios necessários, mais que à sua carreira na vida, à formação do seu caráter, identificado que com ele sempre viveu desde a sua mocidade.

O discípulo honrou dignamente o mestre.

Por isso, hoje, reunidos na luminosa espiritualidade, a que felizes ascenderam, quão grande não terá sido a sua alegria, ao reunirem novamente os seus esforços, para lá continuarem a obra do bem, que tão amorosamente na Terra começaram!

As suas duas existências, aqui, foram como as duas páginas de um mesmo livro, traçadas à luz por um mesmo autor. E que esse autor era Jesus, de quem ambos se souberam fazer dignos apóstolos no mundo, refletindo no prisma de suas imaculadas consciências os raios emanados do Divino Nazareno.

A sua obra é, por esse motivo, imperecível, e os seus exemplos ficarão pontilhando a sua trajetória no Planeta, como cintilantes marcos a assinalar aos viandantes o caminho direito que os pode conduzir ao seio da verdadeira felicidade.

Será necessário, ao que fica dito, acrescentar a narrativa dos fatos que tornam edificante a existência do nosso companheiro?

– Mas seria preciso reconstituir, dia por dia, essa existência abençoada, toda ela votada à prática do amor, esmaltada da benevolência que sabia ter para com todos, fazendo sempre ouvir a sua palavra persuasiva e carinhosa, e que era como um generoso manto a encobrir a imperfeição dos seus irmãos. E ainda que nos propuséssemos detalhar essa comovente história, quantas lacunas não apresentaria ela, desenvolvidos que foram no segredo das boas obras, segundo o evangélico preceito, os seus inúmeros episódios!

Como reuniríamos então o testemunho de todos os corações que dele receberam ocultamente a ação compassiva e benfazeja?

Há, todavia, um fato – o fato culminante da sua vida _ que, por nós testemunhado, bem merece a divulgação que lhe passamos a dar, para edificação dos crentes, e que, posto que seja adiante tratado por um dos nossos mais bem orientados e esclarecidos colaboradores, não perde de interesse por esse duplo comentário, antes ganha em evidenciação e em relevo.

Queremo-nos referir à desencarnação do nosso amigo.

E, se é verdade que bem sabem morrer os que souberam dignamente viver, o desprendimento de Maia de Lacerda constituiu o reflexo vivo, a síntese perfeita da sua existência exemplaríssima.

Quando penetramos no aposento em que o nosso amigo docemente agonizava, um silêncio augusto dominava, e a família reunida aguardava, num recolhimento verdadeiramente cristão, o esperado desenlace. Um ambiente fluídico dos mais puros, como o espírita experimentado sabe imediatamente distinguir, espalhava em torno uma serenidade, uma doce paz que penetrava até ao íntimo da alma.

Dir-se-ia – e não é uma suposição gratuita, temos para nós que era o fato – que uma falange de Espíritos escolhidos envolvia os assistentes, preparando a suave transição.

O enfermo, que desde o começo da crise, isto é, desde que adoecera, não proferira um queixume, não tivera um movimento de impaciência, retribuindo sempre com um sorriso afetuoso os desvelos de sua idolatrada mãe e de suas extremosas irmãs e que – mais do que isso – com piedosa solicitude, por evitar-lhes sobressaltos, enquanto lho permitiram as suas forças, levantava-se do leito e afastava-se de suas vistas, para ir deitar sangue, que às vezes perdia em grande quantidade pela boca – conseqüência, ao que parece, da afecção cardíaca que tanto contribuiu para lhe deprimir o organismo -, revolvia-se lentamente, e ninguém diria que a aflitiva opressão da dispnéia lhe tolhia os haustos, tão brandos eram, como tinham sido, até ali, os seus esforços

Preces silenciosas subiam dos corações emocionados.

A necessidade de nos afastarmos momentaneamente nos impediu de assistir ao desfecho, que, posto que esperado para breve, não o era, todavia, dentro de tão curto espaço – menos de uma hora.

Voltando ao aposento, tornado então em câmara mortuária, reinava no ambiente a mesma paz religiosa.

No meio de alguns amigos fiéis e de famílias com a do nosso amigo relacionadas, e que velavam piedosamente o corpo, a venerada mãe do nosso companheiro completava, ao lado de suas virtuosas filhas, o emocionante quadro, todas revestidas da resignação evangélica a cujo sentimento as habituara ele. Graças a isso e à assistência invisível, que mantinha aquela doce atmosfera, que penetrava – repetimos – até à alma, mas que se não pode descrever, o seu desprendimento pôde efetuar-se suavemente, sem esforço e sem ruído, extreme dessa aflitiva perturbação que produzem no moribundo os intempestivos clamores e lamentações com que a pobre Humanidade, na sua ignorância do além-túmulo, costuma receber esse fato, tão natural, tão santo e, ao mesmo tempo, tão solene.

Havia, indubitavelmente, dor naqueles corações afetuosos; alanceava aquelas almas compassivas a lembrança de tantos dias felizes gozados em comum na Terra, e que, na Terra, nunca haveriam de voltar.

Sentiam decerto a mutilação da sua felicidade, cuja cadeia, que as prendia docemente, acabava de perder o mais forte dos seus elos. Perpassava-lhes no espírito, como a sombra de uma angústia, a certeza de que jamais veriam, ocupando o seu lugar habitual, associando-se aos seus prazeres prediletos, aquele vulto simpático do seu «querido João», de cujos lábios não tornariam a receber em seu coração as amorosas expressões com que lhes fora, na existência, o conforto abençoado, o guia previdente e esclarecido.

Mas essa dor, essa pungente evocação dos dias felizes do passado, eram de tal modo suavizadas pela esperança de se tornarem a ver, transpostas as fronteiras deste mundo;

Naquelas almas verdadeiramente cristãs havia tanta certeza dessa outra vida e da comunhão que poderiam continuar a manter com o idolatrado Espírito

– o qual não se afastava, senão para pairar mais solícito sobre a felicidade delas, de que continuaria a ser o vigilante guia -, que nessa fé cristã, nessa edificante resignação encontravam forças para recalcar a sua mágoa, oferecendo-a em holocausto àquele cujo tranqüilo despertar nessa alvorada da verdadeira vida não se julgariam no direito de perturbar com inoportunas explosões.

Grandioso e edificante exemplo! Quiséramos que fosse possível fazer desfilarem diante daquele verdadeiro templo todos os nossos irmãos em crença, para que aprendessem, a fim de o ensinarem às suas famílias, do mesmo modo que Maia de Lacerda o transmitia à sua, como morre o espírita-cristão e como, nessa solene conjuntura, deve a sua família conduzir-se.

E que diremos dos profanos, dos que hostilizam a nossa doutrina, dos que nos atribuem o gratuito mister de sectários do demônio? Seriam eles capazes de se subtrair à emoção daquele espetáculo sem par? Não se sentiriam tocados de respeito diante desta doutrina que produz tais frutos, e não compreenderiam que só os que se abrigam sob o amoroso manto de Jesus, e praticam a sua divina lei, são capazes de encarar a morte com essa impávida tranqüilidade?

Abençoada a vida que teve tão abençoado desenlace

Abençoado o Espírito que tão alto exemplo nos legou! Possa ele servir-nos de estímulo, como de tanto conforto, naquele momento, nos penetrou a alma! E em que melhor glorificação poderemos envolver a sua memória, que tomando-o por modelo dos nossos passos neste calvário da existência?

Imitemos, pois, o melhor que a nossa fraqueza o permitir, esse peregrino apóstolo, façamo-nos como ele espíritas – cristãos, e somente então lhe poderemos oferecer o testemunho de sentimentos que apenas desabrocham agora nos nossos corações, e em que o seu apostolado nos deve cada vez mais fortalecer. Será esse o único meio de com ele nos identificarmos, enchendo de alegria o seu Espírito, que assim verá a sua obra, na Terra, por nós aproveitada.»

Tal vida – tal morte

Deus, bom e misericordioso, permitiu, em sua misericórdia sem limites, que o último servo de Jesus tivesse a ventura de assistir à partida para a verdadeira vida de um dos seus eleitos.

E o fato de ter eu tido a felicidade de assistir aos últimos momentos daquele que na Terra se chamou Dr. João Batista Maia de Lacerda.

Cheguei à sua residência justamente no momento em que esse espírito de escol desligava as últimas moléculas do seu perispírito das do seu corpo carnal, que tão utilmente lhe servira de instrumento dócil, para galgar os degraus da escala imensa do progresso moral.

Ao entrar no aposento, onde essa epopéia se passava, senti a minha alma toda invadida de um gozo indescritível. A paz que ali reinava era até então para mim desconhecida, e o ambiente em que o meu espírito se sentiu envolvido era tão sutil que logo denunciava a grandeza daquele santuário.

À cabeceira do moribundo estava ajoelhada uma virgem, cuja atitude tão bem traduzia a placidez do seu espírito, que lembrava a Virgem Santíssima nos seus momentos de angústia, na tragédia do Calvário.

Era a alma da sua alma, produto da educação evangélica que, com rara felicidade, ele soube dar aos seus, era a sua discípula querida que tão dignamente soube honrar o seu preclaro mestre, – era a sua querida irmã mais velha.

Tudo nele era serenidade, tudo calma, resignação e crença profundamente espíritas

Em seu semblante não se notava uma contração provocada por alguma dor: ele não sofria!

Aos pés do leito estava sentada sua outra irmã, a mais moça, que lhe servia de enfermeira: a um dos lados achava-se sua idolatrada mãe, testemunha santa de fato tão extraordinário neste mundo de provações,e que, resignadamente, sentia que o produto do seu ser se despedaçava! Talvez que naquele momento lhe passassem pelo cérebro as dores que por aquele filho, o seu querido João, tivesse sentido, desde a sua concepção.

Um pouco mais atrás estava o seu extremoso irmão, o companheiro de 40 anos. Sempre juntos e inseparáveis, nunca entre os dois houvera uma desavença.

Quando, em virtude de algum desvio, o seu fiel companheiro necessitava de conselhos, dava-lhos o João, o chefe do lar, com uma brandura e com um amor de que só ele sabia o segredo. E então, de dia para dia, de hora para hora, de minuto para minuto, mais se estreitavam os laços do amor, mais se apertava o elo da amizade fraternal: cada vez mais amigos.

O amor, não há que duvidar, produz sempre bons frutos.

Eis, pois, o quadro sublime que tive a ventura de presenciar, mas cuja suntuosidade nem palidamente poderia descrever num sucinto escrito de jornal.

Pleno de respeito santo, cauteloso, aproximei-me do leito transformado em altar.

Ao ver-me, sua irmã primogênita lhe disse: «João,não era pelo Discípulo de Max que esperavas? Ele aí está.»

João, despertado pelos meus sentimentos de amor e gratidão, que nesse momento determinara uma prece muda, mas intimamente ungida desses sentimentos – pois partia de um coração sumamente grato por tantos benefícios que aos meus, como à Humanidade, prestara -, quis falar, mas apenas pôde balbuciar alguns sons incompreensíveis, pois já lhe faltavam as forças para transmitir seus pensamentos.

Terminara, então, o ensaio e começava, bela, sublime e comovente, a sinfonia evangélica em honra àquele Espírito de luz! Que beleza! Que mansidão! Que placidez! Meu Deus!

Como é bom morrer-se assim!

Foi então que sua irmã me disse: A isto só se assiste de joelhos. E todos, como um só, nos ajoelhamos de um e de outro lado do leito.

Coloquei a destra sobre aquele coração sem mácula, e orei.

Aos poucos foi diminuindo a respiração e desapareceu, com o último suspiro, o homem justo e puro que jamais a nossa sociedade soube compreender e apreciar. E então, consummatum est: morreu o homem, mas da luta saiu vívido, pujante e belo o Espírito que, célere, foi receber o prêmio do seu heroísmo.

Levantei-me e disse, a um tempo, alegre e saudoso: «Partiu!» Então, sua irmã (5), o anjo tutelar, afagando-lhe o rosto com carícias de amor e de saudades, assim lhe falou: «João, eu não chorei; cumpri a minha promessa. Eu não chorei, nem choro, João.»

Entrementes, penetra no aposento uma criada banhada em lágrimas, e a heroína dessa cena grandiosa advertiu-a: Rosa, aqui não se chora; João não o quer; não perturbes a paz que aqui reina.

E assim foram os últimos momentos do homem justo e bom, austero e afetuoso, que se chamou J. B. Maia de Lacerda.

O meu espírito ficou assombrado de tudo aquilo que presenciara.

Nos meus momentos de profunda meditação eu idealizara um lar espírita, onde a grandeza do amor evangélico sobrepujasse o amor egoísta; mas estava longe de supor que tão cedo teria de contemplar esse grandioso quadro, e teria de ver, na prática, o meu sonho de crente sem tergiversação.

Ante tanta sublimidade não me pude conter e exclamei: «Minha senhora, a maior obra de Maia de Lacerda eu não a conhecia; vim vê-Ia hoje aqui: Maia de Lacerda educou um lar primorosamente evangélico. Deixou o exemplo para ser seguido pelos espíritas. Imítemo- lo . »

Em vida ele pedira aos seus que não deitassem luto, não chorassem e não mandassem dizer missas por ele, e que a importância pecuniária, que teriam de gastar com tudo isso, dessem-na aos pobres.

E assim partiu um espírita com obras.

Não vos admireis, bom leitor; porque Maia de Lacerda foi o espírito criado e educado por Bezerra de Menezes, seu tio carnal e seu pai espiritual. Foi Bezerra quem o fêz espírita, e naquele coração tão meigo e cândido derramou todo o seu amor, corporificado nos exemplos incessantes das virtudes cristãs.

Jesus os ajuntou e deles fez dois Espíritos iguais

Na véspera daquele memorável dia, havia eu sido chamado para ver um outro irmão, também espírita, que havia quatro dias agonizava.

Fui, e, chegando junto ao seu leito, lhe falei: F…, é o sacerdote que te vem – visitar; é o indigno servo de Jesus que te vem trazer remédio, não para o teu corpo, que esse já deu o que podia dar, mas para a tua alma, que talvez necessite de quem lhe traga conforto.

Vim ajudar-te a desprender o teu Espírito da carne, para voar serenamente para Jesus, o porto de salvação. Vamos orar; vamos pedir a N. S. Jesus- Cristo que te liberte desse fardo tão pesado.»

O moribundo, fazendo um esforço sobre-humano, balbuciou: Não!… Não!… Não quero!

Não queres orar, disse-lhe, oro e»; e, colocando a mão sobre a sua cabeça, orei: pedi ao Bom Pastor que se compadecesse daquele trabalhador indolente, que disse que ia, mas não foi, e que entre os tesouros do Céu e os da Terra preferiu os últimos! Seu coração era deste mundo, com o qual se familiarizara e que não desejava abandonar! Era um espírita sem obras, que recebeu a luz, mas escondeu-a debaixo do alqueire!

E assim partiu um Espírito sem obras. Empreendeu, pobrezinho, tão longa e penosa viagem sem provisão; foi imprevidente!

Que contraste, santo Deus! Um, todo de Jesus, todo espiritual; o outro, todo do mundo, todo carnal!

Meditai, caro leitor, comigo sobre esses dois quadros que fui chamado a presenciar…

DISCIPULO DE MAX 5

Homem de talento e de virtudes, sobejamente admirado e querido no seu tempo, Maia de Lacerda teve seu nome perpetuado numa das ruas do Estado da Guanabara, no bairro do Estácio, onde desencarnara.

  1.  “A Tribuna”, 5/6/1902.
  2.  “O Paiz”, 5/6/1902.
  3.  Relatório apresentado à Assembléia Geral da Federação Espírita Brasileira, em 27/2/1903.
  4.  Idem, ibidem.
  5. Pseudônimo de Pedro Richard , – (Nota, da, Editora)

Fonte: Grandes Espíritas do Brasil.

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